Há muito mais risco em ficar de fora por passividade e comodismo do que por inutilidade.
Quando ouço que a Inteligência Artificial vai substituir profissionais, acabar com os empregos e tornar desenvolvedores desnecessários, penso no quanto de medo cabe em uma frase que tenta explicar o futuro inteiro. Algumas tarefas serão automatizadas. Algumas funções vão mudar bastante. Seria ingênuo negar isso. Mas decretar que as pessoas se tornaram inúteis é outra coisa.
Se chegamos até aqui sem IA, imagine o que podemos fazer quando ampliamos aquilo que já somos capazes de entregar.
É justamente aí que falta profundidade em parte da discussão. Quem não usa IA, quem não tenta entendê-la, acaba mais exposto a acreditar em tudo o que ouve. Tanto na promessa de que ela resolverá qualquer problema quanto na manchete que anuncia o fim de todas as profissões.
A IA sabe mais do que nós. E daí?
Ela consulta e processa informações em uma escala com a qual nenhum ser humano consegue competir. Mas os livros também guardam mais conhecimento do que qualquer pessoa individualmente. Nunca deixamos de estudar porque uma biblioteca sabia mais do que nós.
É claro que a comparação tem limite. Um livro não conversa, não escreve código e não recebe permissão para agir em nossos sistemas. A IA pode fazer tudo isso, errar com convicção e repetir o erro rapidamente. Justamente por isso precisamos aprender a usá-la, estabelecer limites e revisar o que ela entrega.
O medo pode ser um sinal de prudência. A paralisia, não.
Você não precisa entregar o volante à IA para descobrir o quanto ela pode ajudá-lo a dirigir melhor.
Comece pequeno. Experimente em uma tarefa que você conhece bem. Peça um contraponto para uma ideia, uma primeira estrutura para um texto, alternativas para um problema técnico. Compare com o que você faria sozinho. Questione a resposta. Refine. É assim que a ferramenta deixa de ser uma manchete e passa a ser algo que você realmente entende.
O que Sundar Pichai disse
Em 5 de junho de 2025, no podcast de Lex Fridman, Sundar Pichai, CEO da Google, respondeu a uma pergunta sobre o medo dos programadores de perder o emprego. Ele disse que, segundo uma estimativa interna, a IA havia aumentado em 10% a velocidade de engenharia da empresa. Na mesma resposta, afirmou que a Google planejava contratar mais engenheiros no ano seguinte, pois o espaço de oportunidades também estava crescendo. Assista ao trecho original a partir de 1h31min16s.
O número é uma estimativa da própria empresa. A contratação era um plano anunciado naquele momento, não uma garantia sobre o futuro do mercado de trabalho. Ainda assim, a reflexão de Pichai coloca uma pergunta importante na mesa de qualquer liderança.
O velho raciocínio do “fazer mais com menos” pode ser traduzido assim:
“Com IA, reduzo minha equipe e continuo entregando a mesma coisa.”
Mas há uma pergunta muito mais interessante:
“Com IA, o que minha equipe agora consegue criar, melhorar ou resolver que antes não cabia no nosso alcance?”
Uma busca substituição. A outra busca potencialização.
Eu não estou dizendo que nenhuma empresa fará cortes. Vai fazer. Nem que toda tecnologia cria automaticamente mais empregos. Não cria. Estou dizendo que reduzir custos não deveria ser a única ideia que um líder consegue ter quando seu time ganha capacidade.
Se a IA libera tempo de uma atividade repetitiva, podemos usar esse tempo para testar uma hipótese, melhorar um produto, atender melhor alguém ou enfrentar um problema que sempre ficava para depois. O resultado depende de escolhas humanas, de demanda real e de como a organização decide distribuir os ganhos.
O risco de ficar parado
Recentemente, escrevi “O homem que faz guerra é o mesmo que chama a IA de ameaça”. Volto àquela reflexão por um motivo: não faz sentido falar da tecnologia como se ela decidisse sozinha o que queremos construir com ela. Há riscos que surgem do desenho dos sistemas, dos incentivos e da forma como as pessoas os utilizam. Nossa responsabilidade não desaparece quando a ferramenta fica mais poderosa.
Também não desaparece quando escolhemos não fazer nada.
Em um mundo que acelera, ficar parado não preserva o lugar onde estamos. Apenas nos tira da conversa sobre o que vem depois.
Se você ainda não começou, comece:
- Estude o suficiente para separar capacidade real de propaganda.
- Experimente com dados e tarefas que você pode usar com segurança.
- Questione o resultado antes de confiar nele ou repassá-lo.
- Treine sua equipe e abra espaço para que as pessoas compartilhem o que aprenderam.
- Amplie a ambição: pergunte o que agora é possível fazer melhor, não apenas o que pode ser cortado.
Não é uma corrida para apertar mais botões. É uma decisão de continuar aprendendo, mesmo quando o futuro ainda não está claro.
Pare de ter medo da IA como se ela fosse escolher, sozinha, o seu lugar. Comece a usá-la, conheça seus limites e participe da escolha sobre o que fazer com essa nova capacidade.
Pense nisso.
Fonte original
- Lex Fridman Podcast, episódio 471, publicado em 5 de junho de 2025: entrevista e transcrição da resposta de Sundar Pichai, seção “Programming”. A apresentação de Pichai no Google Cloud Next de abril de 2025 é outra fonte e não contém a fala sobre 10% e contratação de engenheiros citada acima.
